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Belo Monte: Moradores de Altamira e ribeirinhos não têm uma ideia exata do efeito da usina sobre suas vidas

André Borges | De Vitória do Xingu e Altamira
Valor Econômico - 07/06/2011

Os ribeirinhos que vivem nas margens do Xingu, ou nas centenas de ilhas que se formam ao longo do rio, serão afetados pela construção da Usina de Belo Monte e muitos ainda não sabem onde vão morar quando as águas começarem a subir.

Entre as várias ações compensatórias exigidas para a liberação da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA), há uma de completa urgência que, até agora, nem o governo nem o Consórcio Norte Energia  conseguiram entregar: a informação correta e objetiva à população local sobre como suas vidas e a região serão afetadas pela maior obra energética do país.

Durante uma semana, o Valor conversou com ribeirinhos, representantes
indígenas, diretores de associações, donos de comércio e simples  habitantes da região. A reclamação de falta de clareza sobre a obra e seus  impactos é unanimidade entre os habitantes das principais cidades que margeiam o Xingu.

Embora o governo e empresários insistam na tese de que Belo Monte é o projeto de hidrelétrica mais estudado da história, com 35 anos de análises, polêmicas e alterações, a realidade mostra que até agora pouco desse conhecimento foi de fato traduzido para a população, uma situação que só faz aumentar os conflitos em torno da obra.

Na sexta-feira, o governou oficializou a criação de um grupo para
liderar as ações sociais ligadas a Belo Monte. Durante a cerimônia do chamado "Comitê Gestor do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do  Xingu" - que reúne a Casa Civil, o governo do Pará e os prefeitos dos onze municípios que serão atingidos pela construção da usina, além de uma série de ONGs e associações - cerca de 50 manifestantes entraram no centro convenções de Altamira para protestar contra a criação do comitê e a maneira com que o governo federal tem conduzido o projeto. Houve gritaria, choro, dedos apontados para a cara de prefeitos e cartazes de protestos. A Polícia Militar e a guarda municipal foram chamadas para acalmar os ânimos. Com faixas espalhadas pela sala, os manifestantes afirmavam que a "tropa de choque do governo federal vai gerenciar a morte da Amazônia". O governo da presidente da República, Dilma Roussef, que já foi ministra de Minas e Energia, foi chamado de "ditador, prepotente e autoritário".

Pouca informação foi levada à população, uma situação que só faz
aumentar os conflitos em torno de Belo Monte.

Para evitar bate-boca, os representantes do comitê deixaram que os
manifestantes do Movimento dos Afetados por Barragem (MAB), lideranças indígenas e do Movimento Xingu Vivo para Sempre se pronunciassem. Moisés da Costa Ribeiro, porta-voz do MAB, disse que Belo Monte foi um projeto "feito nas gavetas de Brasília", que o povo da região não será beneficiado pela obra e que a usina não é um fato consumado.

Os protestos foram aplacados com a resposta dos prefeitos e deputados
presentes. Odileida Sampaio (PSDB-PA), prefeita de Altamira, disse que  "está na hora de o projeto de Belo Monte ser tratado de maneira séria e não passional". Esse alegado sentimentalismo que governo e empresários tanto querem evitar, no entanto, nada mais é que o resultado da escassez de informações que chegam à população, e muitas vezes confusas e distorcidas, comenta Doto Takak-Ire, líder caiapó na região do Xingu médio e coordenador da Funai em Altamira.

Quando o governo anunciou que o Ibama havia liberado a licença de
instalação de Belo Monte, na quarta-feira da semana passada, a informação correu feito pólvora entre as milhares de casas erguidas sobre as palafitas dos igarapés em Altamira e região. Até agora, não se fala em outra coisa entre os barracos espalhadas nas margens. Todo esse barulho, no entanto, está impregnado de dúvidas e apreensão. As quase 20 mil pessoas que vivem na região sabem que, em algum momento - e esse momento deve ocorrer em breve - terão de sair dali para serem reassentados em outro local. O que elas ainda não sabem é para onde ir, em que condições, com que tipo de compensação.

Dúvidas também se espalham pelas margens e ilhas do Xingu, onde vivem
ribeirinhos que tiram seu sustento do rio    

As dúvidas também se espalham pelas margens e centenas de ilhas que se
formam ao longo do Xingu, onde vivem milhares de ribeirinhos, famílias que tiram seu sustento do rio. O relatório de impacto ambiental de Belo Monte aponta que há cerca de 3 mil pessoas vivendo nessas condições, se considerada apenas aquelas que habitam a região que será diretamente impactada pela obra, ou seja, as áreas que não terão mais os ciclos naturais de cheia e seca, por causa das barragens.

"Acho que demorou muito para esse negócio acontecer, então ficou todo
mundo meio desacreditado de que a obra começaria algum dia", diz  Carlos Loureiro, dono do restaurante Kalini, lugar onde se come o melhor peixe de Altamira. Comprador regular dos peixes fornecidos pelos ribeirinhos, o Kalini está entre locais que terão de fechar as portas porque a água vai subir.

"Fazer o quê? O progresso tem que vir. Quando o Estado quer uma coisa,
não tem como ir contra", diz Loureiro, já resignado com a ideia de ter que levar seu restaurante para outro lugar.

Com fotos emolduradas que mostram momentos de seca e cheia do Xingu,
fenômeno que faz com que o nível de água oscile em até oito metros de altura, conforme a época do ano e o humor do rio, Loureiro diz que é favorável à obra.
"Nossa região precisa melhorar. E a gente sabe que quando o governo quer uma
coisa, não tem jeito. Eles vão atropelar a gente como atropelaram o Ministério Público Federal", diz. Nos últimos dois anos, o MPF do Pará tem sido um dos órgãos mais combativos em relação a Belo Monte.

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